“Travessia” marca retorno da Canto dos Malditos

São 10 faixas, de um trabalho mais introspectivo e experimental
2017-09-05 09:29:01
Da Redação
Crédito: Divulgação

No inicio dos anos 2000, ao som de guitarras pesadas e letras de histórias de amor e separação, com direito a cuspe na cara e cenas de TV, surgia a banda de rock Canto dos Malditos na Terra do Nunca, que arrebatou o cenário independente baiano e nacional, sucesso que veio após o primeiro trabalho, que leva o nome da banda, gravado em 2006.

 

Em 2017, após 11 anos, entre a separação da banda, o retorno e uma turnê, organizada em 2015, a Canto dos Malditos, lançou no último dia 30 de agosto o segundo disco “Travessia”, possível após uma campanha de financiamento coletivo, que contou com participação de fãs, com contribuições através da internet. São 10 faixas, de um trabalho mais introspectivo e experimental, com novos elementos adicionados ao som da banda. Para a vocalista e compositora Andrea Martins, “Travessia” é e também não é um segundo disco, devido ao tempo entre um trabalho e outro. “Esse disco foi uma vontade de experimentar e sair fora daquele que era mais obvio de a gente fazer”, comentou para o FOLHA DO ESTADO.

 

Nesta entrevista, que conta com a participação do guitarrista, Danilo Castor e da vocalista Andrea Martins, os integrantes contam sobre a o processo de produção do disco, a campanha na internet, as diferenças de divulgação dos dois trabalhos a relação com Feira de Santana. A CMTN também conta com Helinho Sampaio (guitarra), David Castor (baixo) e Leonardo Bittencourt (Bateria).


FOLHA DO ESTADO - Além do título "Travessia" e da capa do disco, há faixas do novo trabalho da banda que tem como tema com o mar, por exemplo, as duas primeiras "A deriva" e "Doce Seria", o que já aponta diferenças do primeiro trabalho em 2006. O que essa travessia representa e qual mensagem que ela passa?


ANDREA MARTINS - Esse nome "Travessia" foi escolhido por várias razões e tem vários motivos de ser. Como foi citado "A Deriva", "Doce Seria" e tem outras músicas que tem essa metáfora relacionada com essa coisa do mar, que tem a ver com a simbologia clássica entre água e emoções e embora falando de amor, esse disco nas composições tem muito essa coisa de olhar para si e fazer seu próprio caminho e entender sua travessia, seu caminhar, também tem essa travessia muito dentro do que se diz respeito às composições, as letras. Acabei usando também essa metáfora por que tem muito a ver com a minha volta para Salvador [que também foi uma travessia minha] e volto a ter esse encontro com o mar, com essa fotografia super presente as águas e isso acabou sendo bem presente nas metáforas e na simbologia do nome. Essa travessia também representa tanto a travessia individual de cada integrante do grupo de chegar até aqui, a esse ponto de encontro onde a gente se encontrou novamente então tem uma bagagem de cada pessoa, de cada um, e uma nova travessia que a gente faz a partir deste momento. São várias travessias e o bom disso é que é movimento. A gente quer estar em movimento. A água está bem presente nesse disco, neste momento da banda.


FE - Formada no inicio dos anos 2000, a banda gravou um disco homônimo em 2006 e anunciou o encerramento das atividades em 2007. Mas se reuniu em 2012 e novamente voltou com a turnê "CMTN Tour", em 2015, inclusive com show em Feira de Santana. Essa fase de 11 anos, após o primeiro CD, é retrada de alguma forma em "Travessia"?


DANILO CASTOR - Talvez não diretamente com as palavras, mas na estética, com certeza. Na estética musical, onde procuramos imprimir nosso caminho e essa viagem de 2006 até o som que chegamos em 2017. Na a concepção visual também. Neste caso a missão de expressar por nós foi da artista Rana Tosto, que fez o encarte numa parceria com Andrea.

 

"(...) para poder desenhar essa história de uma forma que fizesse sentido, por que ao mesmo tempo que é um segundo disco, não é um segundo disco. Tem um salto aí também."


FE - "Travessia" foi resultado de uma campanha de crowdfunding na internet, iniciada em 2015, na época em que lançaram o single "O Sol de Lá", após 10 anos sem musicas inéditas. Como a banda avalia a internet como suporte para divulgação do trabalho ("Travessia" está em todas as plataformas digitais de streaming) e as diferenças na divulgação do primeiro trabalho, em 2006 e este novo em 2017?


DC - O trabalho das bandas com a internet é completamente diferente de quando terminamos! Orkut e Fotolog (redes sociais mais importantes para a divulgação na época) foram substituídos pelo Facebook, Instagram, Twitter... além de outras redes como o MySpace que nasceram, cresceram e morreram nesse intervalo de tempo, não é?. O Youtube estava começando no Brasil, quando terminamos. Mas as bandas não usavam muito ainda e nem se pensava em "monetizar". A internet ganhou novas ferramentas e hoje tem uma importância muito maior. Deu mais força à musica independente. Sem esse cenário, provavelmente não teríamos voltado. A princípio havíamos nos reunido apenas para um show e que foi divulgado somente pelas redes sociais. Nem sabíamos o alcance que teríamos, uma vez que estas redes sociais não existiam, quando acabamos! A gravação deste disco também só foi viável graças à colaboração pelo crowdfounding. Não faço a menor ideia de como faríamos se não houvesse essas ferramentas.


FE - Será lançada versão física de "Travessia"?


DC - O disco físico já está na fábrica! Carregaremos ele para vender na turnê. Muita gente ainda gosta de ter o disco físico (Eu inclusive!). Principalmente nestes casos como o do CMTN, que é feito com bastante carinho. A arte de Rana está incrível e é complementar ao que estamos passando através das músicas.


FE - Como foi processo criativo de "Travessia"? Há diferenças com relação a 2006, menos peso no tocante as melodias. E as composições? Como foram trabalhadas durante este período?


AM - O processo de criação e composição, a partir do momento que a gente decidiu que ia fazer esse disco, eu fui buscar então que composições seriam essas que caberiam neste momento e como que elas soariam. Como iria retratar esta ponte de 2006 para cá, e como isso ia combinar. Achei que faria sentido pegar músicas que já seriam de um segundo disco do Canto na época, músicas que eu até cheguei a lançar solo de uma forma meio caseira na internet, mas que eram músicas que estavam pensadas para um segundo disco do Canto e músicas recentes, que estava compondo agora das coisas que queria dizer agora, que achava que combinaria com essas também de lá de trás para poder desenhar essa história de uma forma que fizesse sentido, por que ao mesmo tempo que é um segundo disco, não é um segundo disco. Tem um salto aí também. Então essas duas coisas precisariam estar presentes, essa característica que vem andando desde de lá e também esse ponto agora de uma nova maturidade, novos caminhos, novos sons. Como venho gravando coisas em casa, trabalho com home studio, trilha, então já estava em processo de compor produzindo, já pensando em linhas de guitarra, baixo e pensando nesses novos sons e como essas composições novas iam soar. A gente pegou algumas "prés" que tinha produzido e começou a trabalhar em cima delas, levou para o estúdio e junto com os produtores foi desconstruindo, pegando as ideias que funcionavam e trabalhando elas. Esse disco no que diz respeito ao som depois de entendido as canções também foi uma vontade de experimentar e sair fora daquele que era mais obvio de a gente fazer, ainda tinha uma vontade muito grande de tocar aquelas guitarras e aquelas coisas e a gente precisava dizer mais que aquilo, por que havia também 10 anos de diferença da primeira história e acho importante propor um novo retrato, uma nova coisa, todo mundo também estava ouvindo várias outras coias e com a mente aberta para que esse momento fosse um momento de experimentação. Não foi muito amarrado ao som anterior, por que naturalmente isso já ia acontecer e já ia ser uma coisa orgânica por que essas composições minhas tocadas pela banda elas já soam de uma forma, aquela identidade já estaria de certa forma presente ali, mas além da identidade, a gente precisava também propor novas sonoridades, novas coisas, novas influências para mostrar essa maturidade e essa vontade de propor coisas novas no som e ai todo mundo foi aberto a isso e os produtores puderam colocar esses novos elementos, teclados, sintetizadores. Não é um disco pensado para ser menos pesado, ele foi pensado para ser o que as composições indicavam ali e guiavam para ser neste momento de agora. A gente esta bem feliz com o resultado.

 

"A gravação deste disco também só foi viável graças à colaboração pelo crowdfounding. Não faço a menor ideia de como faríamos se não houvesse essas ferramentas."


FE - E a relação da banda com Feira de Santana? Foram shows em eventos como Festival Feira Noise (2014) e outros eventos também. Há previsão de show em Feira para lançar "Travessia"?


DC - Feira é muito querida. Em especial para mim e para David Castor (baixista), por que moramos em Feira numa fase muito legal da nossa infância e temos muitos familiares também. O que ainda não aconteceu, mas seria incrível, é topar no show com algum ex-colega da época que estudei no Colégio Santo Antônio.  

 

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