Em apenas 8 meses, 357 meninas deram à luz no Hospital da Mulher

Meninas estão trocando suas bonecas por bebês, muitas vezes por falta de conhecimento, ou simplesmente por um simples descuido
2017-10-12 14:22:11
Da Redação
Crédito: Gleidson Santos/FE

A infância é como uma página ainda em branco, cheia de possibilidades e pronta para ser desenhada com os mais lindos e puros sonhos, porém, infelizmente, o sorriso sempre estampado no rosto e o brilho nos olhos de quem começou a descobrir um mundo fascinante, vêm travando uma batalha com uma realidade muito distante de uma criança, que apenas queria se vestir como a sua princesa preferida ou andar numa carruagem, onde tudo ao seu redor fosse mágico e encantador.


Parece um exagero, mas é um fato que assusta. Meninas estão trocando suas bonecas por bebês, muitas vezes por falta de conhecimento, ou simplesmente por um simples descuido, com isso, a infância vem se perdendo de uma forma cruel, que muitas vezes foge do controle dos pais. Segundo dados disponibilizados pela Fundação Hospitalar de Feira de Santana, o número de casos de gravidez de meninas com até 17 anos, cresceu assustadoramente nos últimos seis anos. Em 2011, não houve registro, em 2012 foram 2 casos, 2013 subiu para 9, em 2014 para 40, 2015 para 151, 2016 pulou para 366 e em 2017, até o mês de agosto, já tinham sido registrados 357 casos.


Uma história em especial chamou a nossa atenção. Com apenas 14 anos, Clara (nome fictício), teve a sua infância interrompida. Na inocência da infância, a garota quase não percebia que o seu corpo estava mudando, relata que apenas sentiu os pés um pouco inchados, e depois de pouco tempo, tinha convicção de que estava doente. “Eu vomitava, sentia dores, então fui à policlínica, tomei uma injeção e voltei pra casa. Quando foi um dia, eu estavadormindo e comecei a sentir dor, e aí precisei ir rapidamente para o hospital”, contou.

 

Apesar do susto, Clara diz que ficou feliz com a notícia, principalmente por ter o apoio da sua família e também do namorado, com quem convive há dois anos e também é adolescente. “Eu fiquei feliz, mas também sentia medo, não sentia dores, mas a minha gravidez desenvolveu muito rápido. Ficava muito feliz quando sentia ele mexendo, com cinco meses já sentia estremecer. No início, minha mãe não gostou muito, mas quando fiz a ultrassom, ela também ficou feliz, meu namorado também, eles sempre me apoiaram desde o começo”, comemorou.


O parto de Clara aconteceu há quase 15 dias e foi normal, mas por conta de complicações, o bebê ainda teve que ficar na UTI. Ela atualmente mora com a mãe, mas sonha também em ter o próprio lar, assim que tiver o seu filho nos braços. “Vamos morar todos juntos, eu, ele e meu namorado”, contou.

 

Lição de vida


Mesmo tendo a sua infância precocemente interrompida, não é isso que a garota sonha para o seu filhinho, a garota vê a educação como prioridade para o futuro ainda incerto. “Eu quero ser feliz, né? Quero continuar os meus estudos e creio que o filho não vai atrapalhar a minha vida, pois tenho o apoio da minha mãe, de toda a família, então creio que não vai atrapalhar em nada”, disse.


Diferente de alguns casos, Clara conta que sempre conversou sobre sexo com a sua mãe, que lhe orientou em relação a tudo, mesmo antes de perder a sua virgindade, com 12 anos. “Antes de me perder, minha mãe já conversava comigo, me disse tudo o que eu precisava saber”, relatou.


Atualmente, a garota não vê muitas dificuldades em ser mãe e contou que consegue conciliar a tarefa com os estudos. Ela faz a 7º ano do ensino fundamental, e não abandonou os estudos, pois recebe ajuda da diretora da sua escola, que leva as provas e lições para que ela as faça em casa.


Segundo a diretora médica do Hospital da Mulher de Feira de Santana, Márcia Sueli Amaral, do ponto de vista físico, as adaptações que o corpo de uma criança vai ter que sofrer tão precocemente, podem fazer com que a gravidez seja mais difícil, onde o risco de sentir dores e de ter um parto prematuro serão muito maiores. Márcia pontuou que o mais grave nestes casos de gravidez é a questão psicológica, pois estas meninas não estão preparadas psicologicamente para ser mães, o que pode também prejudicar a gestação.

 


Depressão pós-parto


Márcia ainda alertou para a importância do acompanhamento de um psicólogo para estas mães, para que não sofram de depressão pós parto. “Hoje em dia estamos preocupados em tratar na própria gestação, elas precisam de um psicólogo e precisam ser tratadas ainda na gravidez para que não sofram de depressão pós parto. O pai pode rejeitar, os pais dela também podem não aceitar a gravidez, então elas sofrem do ponto de vista psicológico, de maneira que precisam de um respaldo grande do pré-natal, que tem que ser feito por uma equipe multidisciplinar, que é um pré-natal de alto risco justamente por isso”, contou.


Segundo a psicóloga Áquila Thalita Sampaio, os casos de depressão pós parto acontecem por muitas vezes, as crianças ou adolescentes não encontrarem o apoio da família. “O que a gente vê é o seguinte, a depressão pós parto, ela tem sinais e sintomas muito característicos na fase do puerpério, então se você pensar que todo o contexto que envolve a gravidez na adolescência pode ser um contexto que na verdade inviabilize ou dificulte o contato desta paciente com o seu bebê, isso pode dar condição para uma depressão pós parto se desencadear, então é sempre estar ligado nestes sinais que se dá o cuidado da mãe com o filho, nunca esquecer a adolescente, que está ali sendo mãe, mas deve ser cuidada, nunca negar auxílio ou julgar sentimentos que envolvem a fase do puerpério, que é uma fase também de transição muito delicada e por ser uma fase da adolescência, é uma fase de características psicológicas muito particulares, então tudo aquilo que pode estar ligado a esta fase, deve ter um cuidado sim e pensar isso também como uma possibilidade de ter um fator a mais para desencadear uma depressão pós parto”, explicou.


Antonia do Carmo Leite, assistente social conta que as meninas chegam à Assistência frustradas e assustadas com a situação, principalmente por conta da família, que as vezes influenciam negativamente. “Elas muitas ficam com medo da família, mas querem ser atendidas, às vezes a mãe traz dizendo que a filha está sentindo uma dor e não sabe o que é, e quando pensa que não, já é uma gravidez, então ela sente muito frustrada, para elas é muito novo, outras não, acham normal, as famílias também, muitas chegam a parir e neste momento tem, um pouco distúrbio, a depressão pós parto. A maioria dos casos, muitos rejeitam, a família rejeita, outras não, apoiam, e a gente chama a atenção delas para que estas adolescentes não fiquem desacompanhadas, sem proteção familiares, pois no momento em que chegam aqui, a gente vê aquele jeitinho de criança, outras não, elas vêm com companheiros, com amigas, pois a família não sabe, não existe acompanhamento para metade dos casos.


Elas chegam a parir e quando vêm o bebê, sentem aquele impacto é aí que a gente entra e começa a trabalhar”, disse.


A importância do acolhimento e acompanhamento


A diretora médica do Hospital da Mulher, Márcia Sueli, chamou a atenção para a importância do acompanhamento durante todo o período da gestação, como a realização do pré-natal. “Independente de ela estar em um pré-natal de alto risco, este risco existe, a menina que não está preparada ainda, o grande risco é a prematuridade, elas não chegam até os 9 meses, mas sempre gosto de separar por idade, pois muitas vezes chegam ao pré-natal de alto risco, meninas de 18, 19 anos, elas já têm o corpo de mulher, apesar de serem adolescentes, o corpo delas vai responder como de adulto, é diferente de uma menina de 10, 11 anos”, disse.


O Hospital da Mulher em Feira de Santana, realiza o acolhimento das mães na Casa Puérpera, que funciona dentro da instituição e acolhe os bebês que nascem com baixo peso ou algum outro problema de saúde. As mães recebem alta da enfermaria, mas permanecem no hospital e acompanham os filhos até que eles recebam alta. “Sempre que os bebês são prematuros, a Casa da Puérpera os acolhem. O marido pode vir visitar, a família também, mas têm muitas adolescentes, que devido à situação de ficarem o tempo todo presas com o bebe, às vezes não vem ninguém visitar. Em certos casos, a adolescente até abandona o bebê, mas quando está na Puérpera é difícil, pois cria-se um vínculo. Em alguns casos, elas abandonam ainda quando estão na enfermaria, pois se sentem rejeitadas pela família, ninguém vem visitar, então acionamos o conselho tutelar e aí eles têm que vir”, contou a diretora.


A psicóloga Áquila Thalita Sampaio, explicou como é realizado o acolhimento e acompanhamento destas gestantes. “Primeiro a gente realiza um acolhimento psicológico, da adolescente, a gente precisa compreender que todo aspecto que envolve a avaliação psicológica na psicologia, precisa abarcar aí todos os contextos que envolvem essa adolescente, esse de vulnerabilidade é um contexto muito importante, porque hoje não tem como compreender o sujeito se não for o sujeito biopsicossocial, envolve tudo isso aí, então a priori é atender, acolher essa adolescente gestante, na fase do puépere, em que período for, pra tentar entender a relação que ela faz da maternidade com a sua própria vida, com o momento que está sendo vivenciado, se for uma situação de vulnerabilidade, onde já houve uma violação de direito, principalmente adolescentes que são abusadas, a gente sabe que estão respaldadas pelo estatuto da criança e do adolescente, a gente precisa também compreender toda essa dinâmica que envolve a adolescente pra tentar auxiliar ela nesse sentido aí, quando existe um rompimento de barreira dentro de um processo que poderia ser natural, pois a adolescente passa por um processo natural, de crises, tem a mudança com relação à identidade, perfil, então pra mim o primeiro passo é compreender o contexto, os aspectos que envolvem esta adolescência, essa gestação também e tudo aquilo que pode condicionar, dar condição à essa gestante de estar mais vulnerável neste contexto e não só vulnerável em torno de corpo, mas em torno da questão psicológica também, que é o mais importante”, explicou.


É preciso dizer o que é certo e o que é errado


Para a coordenadora da Assistência Social em Feira de Santana, Márcia Porto, o problema não está na falta de informação, mas sim na questão do esclarecimento por parte da família. “Eu não creio que seja falta de informação sobre a prevenção, eu acho que os adolescentes têm o acesso, porém, o que pesa na minha visão é a questão familiar, o olhar família em relação ao adolescente, informar a ele desde cedo o que precisa fazer para se prevenir, quanto aos riscos de uma possível gravidez e esse acompanhamento do adolescente, em dizer o que é certo, errado, o momento em que se deve inserir nesse mundo que na verdade é precoce, por isso os dados mostram uma crescente, por conta desta falta de informação familiar”, contou.


A médica Márcia Sueli ainda afirmou que os casos de gravidez na adolescência não são altos apenas em Feira de Santana, mas no mundo inteiro. “A gente tem visto cada vez mais crianças, meninas muito jovens que desenvolvem a sexualidade muito cedo e mais vezes sem ter o conhecimento devido por falta de orientação, da escola, dos pais, que deveriam estar fazendo uma orientação a respeito da sexualidade. Outro ponto é em relação ao uso de métodos anti-conceptivos, algumas não têm conhecimento, por conta de não terem orientação dos pais, isso é fato, mas algumas têm orientações e mesmo assim engravidam e muitas vezes usando estes métodos, o que a gente tem visto é que o uso de camisinhas por exemplo, que tem uma eficácia baixa, e o uso de anticoncepcionais orais, que apesar de ser teoricamente ter uma eficácia muito boa, mas do ponto de vista prática, eles falham, por que o uso diário não é feito pelas adolescentes, muitas vezes elas esquecem, e com isso acabam tendo uma gravidez indesejada”, concluiu.

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